A energia eólica já representa 20% da eletricidade europeia, mas a eletricidade como um todo ainda cobre menos de 25% do consumo energético do continente. Neste cenário de tensão geopolítica e dependência de combustíveis fósseis, o setor eólico europeu lançou em Madrid o “Madrid Call to Action”, um plano estratégico para acelerar a eletrificação e reforçar a autonomia energética da União Europeia na próxima década.
A iniciativa foi apresentada durante a WindEurope 2026, que decorre em Madrid até 23 de abril e consolida Espanha como um dos protagonistas da transição energética europeia. O objetivo é claro: passar de um contexto de crise e vulnerabilidade para um modelo baseado em energia autóctone, competitiva e resiliente.
Eletrificação como eixo da segurança energética
A recente instabilidade internacional, marcada pelo conflito no Irão, voltou a evidenciar a fragilidade europeia face aos mercados globais de combustíveis fósseis. Para o setor, a resposta estrutural passa por uma única via: acelerar a eletrificação com base em energias renováveis, com destaque para a eólica onshore e offshore.
Após a invasão da Ucrânia, a Europa intensificou os investimentos. Só em 2025, o setor eólico investiu 45 mil milhões de euros em nova capacidade instalada. Além disso, a cadeia de valor eólica emprega atualmente mais de 440 mil profissionais, contribuindo de forma decisiva para a autonomia estratégica europeia e para o reforço da sua competitividade industrial.
Durante a sessão de abertura da WindEurope, a presidente da AEE, Rocío Sicre, foi clara: a segurança energética tornou-se uma prioridade estratégica para a Europa e, nessa equação, a energia eólica desempenha um papel essencial. Sicre destacou ainda que um dos principais entraves ao crescimento continua a ser a complexidade administrativa na aprovação de novos projetos, defendendo processos mais ágeis, previsíveis e coordenados, sem comprometer as garantias ambientais.
Espanha como referência industrial
A realização da WindEurope 2026 em Madrid reforça o posicionamento de Espanha como potência eólica europeia. O país dispõe de 100% da cadeia de valor eólica, desde o design e fabrico de aerogeradores até à operação e manutenção, sendo o quarto maior exportador mundial de turbinas eólicas.
O setor espanhol emprega mais de 37 mil profissionais e conta com 287 centros industriais. Com 32.910 MW instalados, a energia eólica cobre cerca de 22% da procura elétrica nacional, reduzindo custos no mercado grossista e reforçando a segurança de abastecimento.
No entanto, o ritmo de instalação está aquém do necessário. Atualmente, Espanha instala cerca de 1 GW por ano, quando seriam necessários aproximadamente 4 GW anuais para cumprir os objetivos energéticos. Existem mais de 10 GW com Autorização Administrativa de Construção (AAC) que poderiam entrar em operação antes de 2029, além de outros 9,2 GW com Declaração de Impacte Ambiental positiva, pendentes de autorização final.
Para Rocío Sicre, é fundamental aplicar de forma coerente o princípio de Interesse Público Superior aos projetos eólicos, alinhando as exigências europeias com procedimentos nacionais mais harmonizados e eficientes.
Madrid Call to Action: redes, procura e financiamento
O “Madrid Call to Action” propõe dez medidas concretas centradas em três pilares: acelerar o licenciamento, reforçar as redes elétricas e ativar a procura.
Entre as prioridades destacam-se o reconhecimento da eólica como projeto de Interesse Público Superior, a otimização dos leilões, a repotenciação de parques existentes, o reforço do fabrico de infraestruturas elétricas e o aumento do investimento em redes. O plano também sublinha a necessidade de incentivar tecnologias eletrificadas, como bombas de calor e veículos elétricos, reduzir a fiscalidade sobre a eletricidade e simplificar mecanismos como os PPAs.
A WindEurope 2026 reúne em Madrid mais de 15 mil profissionais e 400 oradores, incluindo líderes políticos e empresariais, num momento decisivo para o futuro energético europeu. O debate vai muito além da capacidade instalada: envolve competitividade industrial, financiamento, aceitação social, digitalização e integração de redes — elementos essenciais para sustentar a próxima fase de crescimento, incluindo o avanço dos aerogeradores offshore e a possível hibridação com hidrogénio verde.
Impacto na transição energética europeia
O reforço da eletrificação com base na energia eólica está diretamente alinhado com o ODS 7 – Energia Acessível e Limpa e o ODS 13 – Ação Climática. Cada gigawatt adicional de capacidade eólica reduz a dependência de importações fósseis e evita milhões de toneladas de emissões ao longo da sua vida útil. A aceleração proposta em Madrid poderá funcionar como um verdadeiro “escudo energético” europeu, comparável a substituir progressivamente centrais térmicas por fontes renováveis produzidas dentro das próprias fronteiras.
A mensagem lançada a partir de Madrid é inequívoca: a Europa dispõe de tecnologia, indústria e talento para liderar a transição energética. O desafio agora é alinhar regulação, investimento e vontade política para transformar ambição em capacidade instalada real. A próxima década será decisiva para determinar se o continente consolida a sua autonomia energética ou permanece exposto às turbulências externas.
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