
Num contexto em que a Organização Meteorológica Mundial intercambia diariamente mais de 100 milhões de observações meteorológicas, climáticas e hidrológicas, a integração da Inteligência Artificial na previsão do tempo tornou-se um fator decisivo para o setor energético. É neste cenário que se destaca o trabalho de Ana Relaño, meteorologista do Instituto de Ingeniería del Conocimiento (IIC), que aplica IA para melhorar a previsão e a gestão da energia eólica nos mercados elétricos.
Licenciada em Ciências Físicas e com Mestrado em Meteorologia e Geofísica pela Universidade Complutense de Madrid, Ana construiu a sua carreira na interseção entre a previsão numérica e as energias renováveis. No IIC, centro privado de I+D+i fundado em 1989 e pioneiro em Inteligência Artificial, participa no desenvolvimento de soluções avançadas baseadas em Big Data, Machine Learning e Processamento de Linguagem Natural, com aplicação direta no setor energético.
A Inteligência Artificial já faz parte da meteorologia operacional, seja no processamento de dados observados necessários para inicializar modelos, seja em técnicas de nowcasting. Nos últimos anos, contudo, o impulso foi ainda maior com o desenvolvimento de modelos meteorológicos baseados em IA, que não resolvem equações físicas tradicionais, mas identificam padrões em grandes volumes de dados para gerar previsões.
Na prática, a combinação entre modelos físicos clássicos e técnicas de IA é onde se observa maior valor acrescentado. A capacidade de tratar enormes quantidades de dados de forma mais eficiente permite reduzir tempos de execução, melhorar a precisão das previsões de curto prazo e otimizar a programação da energia eólica nos mercados elétricos. Para os operadores, isso traduz-se em melhor ajuste entre produção prevista e produção real, com impacto direto nas receitas.
No IIC, Ana participa no desenvolvimento de um modelo meteorológico próprio baseado em IA, com foco na Europa, quatro execuções diárias e previsões horárias. Esta tecnologia já demonstrou melhorias nas previsões energéticas, reforçando o papel da IA como ferramenta estratégica para o setor.
O setor eólico apresenta particularidades que tornam a aplicação da IA especialmente desafiante. A geração depende fortemente da localização dos parques e das condições meteorológicas locais, frequentemente marcadas por elevada variabilidade e fenómenos de pequena escala. A heterogeneidade dos dados e a dispersão geográfica das instalações exigem modelos robustos e dados de elevada qualidade.
Além disso, a própria presença de infraestruturas renováveis pode influenciar o ambiente local. Estudos já apontaram alterações na temperatura superficial associadas à presença de turbinas eólicas, bem como o conhecido wake effect, que modifica o fluxo do vento ao atravessar um aerogerador. Em parques híbridos, onde coexistem turbinas eólicas e painéis solares, também podem ocorrer mudanças microclimáticas relacionadas com o albedo e a dinâmica térmica. Tudo isto reforça a complexidade da modelação e a necessidade de ferramentas avançadas.
Para além da previsão meteorológica, Ana destaca o potencial da IA no manutenção preditiva de parques eólicos, através da análise de dados recolhidos nas próprias turbinas para deteção precoce de falhas mecânicas, e em áreas como a proteção de aves. A digitalização e a análise inteligente de dados operacionais estão a transformar a gestão de ativos.
Com o objetivo de levar a Inteligência Artificial do plano conceptual para a operação real, a Asociación Empresarial Eólica e o IIC impulsionaram o primeiro Laboratório de Inteligência Artificial aplicado às energias renováveis. A iniciativa pretende acelerar a integração da IA na operação, manutenção, previsão e tomada de decisão no setor.
Entre as principais linhas de trabalho estão a identificação de oportunidades concretas, a análise de casos de uso, a avaliação de tecnologias disponíveis e o acompanhamento do enquadramento regulatório. A colaboração entre empresas, centros tecnológicos e associações é vista como essencial para garantir uma adoção eficaz e de alto impacto, assegurando que as soluções desenvolvidas respondem às necessidades reais da indústria.
Apesar do entusiasmo em torno da IA, Ana defende uma visão equilibrada. A tecnologia está a transformar a cadeia de valor do setor eólico, desde o design de parques até à otimização da localização de turbinas e à melhoria contínua das previsões meteorológicas. No entanto, sublinha que o critério técnico continua a ser insubstituível.
Nos próximos cinco a dez anos, a expectativa é de uma integração cada vez mais profunda da IA em todas as fases do ciclo de vida dos parques eólicos, com ganhos em eficiência, precisão e sustentabilidade.
A melhoria das previsões meteorológicas e da gestão da produção eólica contribui diretamente para o ODS 7, Energia acessível e limpa, ao aumentar a integração segura das renováveis nos sistemas elétricos. Ao mesmo tempo, ao reduzir desvios e otimizar recursos, reforça o ODS 13, Ação climática, permitindo um sistema energético mais eficiente e com menor pegada de carbono. Pequenas melhorias percentuais na previsão, quando aplicadas a milhares de megawatts instalados, representam impactos significativos à escala nacional e europeia.
Num setor em plena transformação digital, a Inteligência Artificial não é apenas uma tendência tecnológica, mas um pilar estratégico. A questão já não é se a IA fará parte do futuro da energia eólica, mas até que ponto saberemos integrá-la de forma inteligente e responsável para acelerar a transição energética.
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